quarta-feira, março 22

O Réu

Povo de Sucupira, alegrai-vos, regozijai, porque está próximo o tempo de processar o Estado à la carte, por causa da proposta de lei relativa à "Responsabilidade Extra-Contratual Civil do Estado e Demais Entidades Públicas".
"Podemos socorrer-nos de advogados e juristas em termos de contestação das acções", admitiu o ministro quando confrontado com a alegada falta de magistrados do MP enquanto representantes do Estado para dar seguimento a este tipo de processos." E mais Blá, Blá, Blá, Dixit A. Costa , Ministro da Justiça.
Ora portanto, face ao previsível aumento de acções de responsabilidade civil contra o Estado, devido ao novo regime de responsabilidade civil estatal, o Ministério quer que juristas e advogados tomem nas suas mãos a defesa do próprio Estado nas demandas contra este instauradas, substituindo-se aos magistrados do MP.
À partida, uma boa solução. Advogados há muitos, e um cliente como o Estado é sempre benvindo. Mas antevejo pelo menos, e assim de repente, dois problemas: Quem serão os advogados agraciados com estes processos?? Alguma ideia??? Eu tenho algumas, e nenhuma passa por advogados com menos de, vá lá, 10 anos de experiência, nem por outros com escritórios menos mediáticos (bem, a não ser uma meia dúzia ligados ao partido do sistema). Mesmo correndo o risco de estar a generalizar demasiado, não acredito que esta medida vá beneficiar os jovens advogados. Segundo problema: todos os anos diminuem as vagas para ingresso no CEJ (Centro de Estudos Judiciários - vulgo Escola dos Magistrados), e mesmo assim, parece que nem todas as vagas ficam preenchidas. E porquê? Serão os juristas que concorrem assim tão fraquinhos?? Estamos todos fartos de ouvir que há falta de juízes, mas de facto, parece que a preocupação em manter o clube restrito é maior (desculpem-me os meus colegas e amigos que ingressaram na carreira... ). Seja como for, há poucos juízes e magistrados, e na sua falta, agora contratam-se advogados - a que preço? Não acredito que vão pagar o mesmo a um advogado do que pagam a um magistrado do MP... assim, em suma, é uma medida muito mais barata para o nosso poupadinho governo: é a velha história - em vez de se contratar quadros, com todas as obrigações inerentes, contrata-se um prestador de serviços (vulgo recibo verde...). a preço muito mais barato, suponho. Que será que o Conselho Superior de Magistratura pensa disto? Advogados a fazer trabalho de magistrados... prevejo a guerra declarada, já que são duas classes que estão de lados diferentes da barricada, por incrível que pareça....



segunda-feira, março 20

(In)justiça, ou Justiça in?

Fátima Felgueiras. Aí está um nome que gostaria muito de deixar de ouvir todos os dias. Arrepia-me este confronto diário com a realidade de uns quantos permanecerem acima, à margem, fora da lei. Com requintes de pop stars.
A Lei. Tão madrasta para uns, tão morna, mole e macia para outros...
A novidade de hoje é que a senhora D. Fatinha não cumpriu as ordens do Tribunal de Instrução de Guimarães, não entregando o seu passaporte brasileiro: porque, hélas, o deixou no Brasil. Imagino o transtorno da senhora, quando viu que não poderia cumprir essa ordem judicial....
Acusada de 23 crimes que todos tem a ver com a confecção de um trés chic, trés B.C.B.G, saco azul, na câmara de Felgueiras, esta senhora tem sido agraciada com a benevolência divina - deve ser pelo nome que tem.
Flash back: uma autarca (a própria) fica a saber (sabe lá Deus por que meios, mas parece-me que também aqui se arranjavam uns processozinhos interessantes...) que foi apanhada no meio do seu tricot, e que seria presente à justiça. Por entre os novelos de lã azul (e não me digam q ela não tinha previsto isto!) a senhora embarca imediatamente para o outro lado do Atlântico. Para mim, neste momento, esta senhora tornou-se uma foragida da lei, digam o que disserem. É certo que, neste país, uma pessoa inocente pode passar uns tempos atrás das grades, enquanto se tiram as teimas. Mas sou apologista do "quem não deve não teme". E ela fugiu da raia. Lá no Brasil, contrata um advogado-tubarão, e mantém cá um advogado que vai fazendo de núncio apostólico, para dar os recadinhos ao povo, e ir entregando uns papelinhos no tribunal. E lá fica, gozando as suas fériazinhas. Tanto acordo de colaboração com o Brasil para tanta coisa, e nada que justifique pegar nesta senhora e recambiá-la para cá... enfim.
Eis senão quando, estrategicamente antes das eleições autárquicas, a Rainha resolve voltar ao seu reino irritantemente cheia de bom aspecto, a fim de retomar o seu trono: juro que pensei "é agora que vai dentro". Nada. Assisti, boquiaberta, incrédula e revoltada, à manobra do regresso: voltou, escapou-se e venceu quer a justiça, quer as eleições. Se os felgueirenses querem idolatrar quem é acusado de se aproveitar deles, isso é mesmo lá com eles. Mas a justiça aqui perdeu feio. E perderá sempre que se permitir a impunidade dos que troçam dela. Casas pias, apitos dourados, este, são processos que mostram bem o que a burocracia judicial pode fazer por quem pode.
A mim choca-me. Violentamente. Um tipo qualquer sem eira nem beira, por gamar umas carteiras assim de esticão, é um criminoso hediondo, leva umas lambadas nas esquadras (quando não morre lá, mesmo...), se tiver o azar de ser reincidente ou reclamar muito, ainda vai mas é dentro, só para referescar as ideias, enquanto se investiga. Lentamente, porque às vezes até se esquecem dos presos preventivos e deixamnos a marinar a sua raiva... a menos q eles sejam conhecidos e tenham connections, que aí, ninguém se esquece deles, e o tratamento é vip.
Recursos, incidentes, requerimentos, mais despacho menos acórdão, mais anulação de prova menos acareação... BAH!!! Eles continuam aí. Pior - ganham eleições e tudo. Será que o crime compensa? Custa-me, mas cada vez acredito mais que sim. Espero o dia em que me provem o contrário.

Fonte: Público Online

quinta-feira, março 16

Será assim? Ou nem por isso?

"Se Portugal sofre ainda de uma doença antiga, é do pessimismo. Entranhado, faz de nós não já um povo taciturno, mas demasiado sério, ensombrado, fechado por dentro. Somos lentos, culpados de tudo."

José Gil, "Visão", 16-03-2006